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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Desassossego




Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmos-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente ente margens afastadas.
Não sei se estes sentimentos são uma loucura lenta do desconsolo, se são reminiscências de qualquer outro mundo em que houvéssemos estados - reminiscências cruzadas e misturadas como coisas vistas em sonhos, absurdas na figura que vemos mas não na origem se a soubéssemos. Não sei se houve outros seres que fomos, cuja maior completidão sentimos hoje, na sombra que deles somos, de uma maneira incompleta - perdida a solidez e nós figurando-no-la mas nas só duas dimensões da sombra que vivemos.
Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. A impossibilidade de nos figurar uma coisa a que correspondam, a impossibilidade de encontrar qualquer coisa que subsititua aquele a que se abraçam em visão - tudo isto pesa como uma condenação dada não se sabe onde, ou por quem, ou porquê.

(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego - Fragmento 196 )

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

1001 Listas para se fazer antes de morrer...




O que era uma ideia simples virou uma febre editorial e consequentemente uma angústia mundial. Eu estou falando das publicações do tipo "1001 alguma coisa que vc precisaaaaa muito fazer antes de morrer para que a sua alma descanse em paz e não precise reencarnar". Neste caso o título não é nenhuma publicação do Vaticano embora acredito que ele um dia poderia lançar algo como "1001 Orações para você fazer antes de morrer (e poder continuar vivendo)".

Do gigante universo das listas, resolvi hoje falar sobre elas e colocar os links para que cada um possa ter acesso as listas e fazer quem sabe as suas....

A primeira e mais famosa das listinhas é sem dúvidas "1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer". Acho que das listas é a mais fácil de digamos "completar". O legal desta lista é que vc pode ter um "panorama" da música através das décadas e serve como base para  buscar outras discografias...

Outra lista que agora circula é "1001 Livros para Ler Antes de Morrer" A lista é uma adaptação da lista portuguesa. Eu como sou fanática por livros não pude deixar de dar uma conferida. Porém, nesta lista acho que faltaram livros como "Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa" e "Primeiras Estórias" do mesmo autor que são livros fantásticos. Eu sinceramente prefiro a lista da Folha com os "Cem melhores romances do Século XX"

Para quem gosta de vinhos também tem a lista "1001 Vinhos para Beber Antes de Morrer". Essa lista é bem perigosa, pois você pode ter uma cirrose quando chegar no 990... Mas tem boas dicas de vinhos e conta a história de muitos lugares que produzem a bebida.

Como não poderia faltar, tem "1001 Filmes para Ver Antes de Morrer". Eu sinceramente fugiria de "Cidadão Kane" para continuar vivendo! Até hoje eu não consigo entender como alguém gosta deste filme...rs

Ainda, fazendo a lista das listas, tem a de "1001 Lugares para Conhecer Antes de Morrer" e uma bem humorada "1001 Coisas para te irritar antes de Morrer"....

Bom, eu sinceramente não sou muito fã de publicações deste tipo. Não sou muito adepta de listas, regras ou conselhos... Eu gosto de tudo que poderia estar nestas listas como viajar, ouvir música, ler, assistir filme, tomar vinhos e comer que está na outra lista "1001 comidas para provar antes de morrer".
Mas meu desejo e curiosidade não tem regras e prefiro experimentar com base no meu desejo de conhecer algo novo...

Mas como a regra é lista resolvi traçar um lista com "10 coisas que gosto na minha vida" e "10 coisas para dizer as pessoas"...

E você? Qual a sua lista preferida?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Amor Líquido


 "A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos - um amor líquido. A insegurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos"

O texto e o título deste post são partes do livro de Zigmunt Bauman, sendo o começo de uma provocação que levará o leitor sobre a fragilidade dos laços humanos. Longe de ser um livro de auto-ajuda sobre como conquistar e manter parceiros ou ainda sobre relacionamentos, vale lembrar que Bauman é um sociologo professor de Sociologia nas Universidades de Varsóvia e de Leeds. Ele tem vários livros traduzidos para o português, e o tema recorrente em sua obra são os vínculos sociais possíveis no mundo atual, neste tempo que se convencionou denominar de pós-modernidade.

Assim como Baudelaire em "Le spleen de Paris" disse "Corte em pedacinhos e vai descobrir que cada um deles tem vida própria" o texto de Bauman vai fluindo sobre as principais questões do relacionamento humano. Cada pedaço tem vida própria, cada fragmento de texto nos leva a reflexões sobre a fragilidade dos laços humanos e como a era da informação está tornando os laços "flexíveis" gerando níveis de insegurança cada vez maiores. Na era das mídias sociais que os relacionamentos se dão em "rede", aos poucos Bauman vai mostrando que estas redes podem ser tecidas e desmanchadas com facilidade.

Com isso, não somente os vínculos amorosos e familiares são afetados e sim as relações humanas. O livro vai além e retrata como a dificuldade em se tratar um estranho com humanidade tem influenciado as políticas anti-imigratórias de diversos países.

O tema "relacionamentos" enfrenta um "boom" no mercado editorial. A cada dia são publicados mais livros sobre o tema na seção de auto-ajuda do que o leitor é capaz de ler. Enquanto isso um exército de pessoas consomem desesperadamente no intuíto de relacionar-se.

Se voltarmos a sabedoria dos gregos no "Banquete de Platão", a profetisa Diotima de Mantinéia resaltou para Sócrates que "o amor não se dirige ao belo" e sim a "geração e nascimento do belo". Ou seja não é feito ou ansiado por coisas prontas e amar está mais no processo de criação do que no ato pronto.

Bauman vai além e exemplifica que no amor existem dois seres e uma grande incógnita. Talvez por isso que este parece mais com um capricho do destino do que um ato de liberdade do ser. A liberdade de ser se incorpora ao outro e o amor individual não pode ser atingido. Para ser capaz de amar é necessário coisas como humildade, fé, coragem e disciplina. Mas numa cultura na qual se tornam cada dia mais raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar é cada dia mais díficil.

Segundo Bauman a nossa cultura consumista favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro e o desvanecimento das habilidades de sociabilidade é reforçado e acelerado pela tendência inspirada no estilo de vida consumista e dominante onde tratam-se os outros seres humanos como objetos de consumo e os julgam-se segundo este padrão. Assim o outro é na melhor das hipóteses parceiro de consumo ou companheiros na atividade e alegria de consumir, cuja presença pode intensificar esses prazeres.  Neste processo, os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares vão desaparecendo. Com isso, valores como a solidariedade, fraternidade dentre outros valores humanísticos são os primeiros a desaparecer, fazendo os laços sólidos tornarem-se frouxos, ou ainda líquidos.

O Amor Líquido dá lugar ao Amor Sólido e numa sociedade onde o indíviduo dá lugar ao coletivo, as reflexões de Bauman se tornam cada dia mais pertinentes.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Amor nos Tempos do Cólera



Garcia Marquez é um dos grandes escritores de língua espanhola do século XX. Foi ganhador do prêmio Nobel de literatura por "Cem anos de Solidão".
Eu sou leitora assídua de Garcia Marquez, tanto que o nome deste blog é uma homenagem a um livro dele. Acho que junto com Saramago talvez seja o escritor que eu mais tenha lido obras. Dentre elas "Cem Anos de Solidão" ( Sim, não vou comentar este livro aqui porque ele merece um post só dele).
Porém, embora muitos considerem "Cem Anos de Solidão" a sua obra prima, sinceramente sou fã incondicional de "O Amor nos Tempos do Cólera". Acho ele atingiu a maturidade na narrativa de cem anos, porém a história de "O Amor nos tempos do Cólera" é sensacional.
Quanto tempo você esperaria por um amor? Florentino Ariza esperou 53 anos, 4 meses e 11 dias. Porém, mais do que isso, o livro retrata um renascimento de amor, sem idealismo e a morte de um amor romântico. Confuso não?
Embora Garcia Marquez seja conhecido pelo seu realismo mágico ou fantástico como costumam dizer e foi inspirado por Kafka, este livro é feito de personagens que poderiam ser reais. O amor é um amor que poderia ser real.
Vale a pena a leitura. Recentemente foi lançado a adaptação do filme. Embora este conte com Jarvier Bardem, eu achei que o filme deixou muito a desejar. Porém, assista depois que ler o livro pois essa leitura é uma das mais deliciosas que existe!

domingo, 18 de julho de 2010

Nós que aqui estamos por vós esperamos

(Marcelo Massagão, 1998).



Como seria uma narrativa sobre o Século XX? "Nós que aqui estamos por vós esperamos" narra com imagens, recortes, frases e música. A história do breve século XX como Eric Hobsbawm em "A Era dos Extremos " o definiu passamos por um século que tiveram duas guerras mundias, bomba atômica, socialismo, corrida espacial, crash da bolsa, feminismo, dentro outros acontecimentos...


O filme é um recorte destes acontecimentos imagens deste século com citações célebres e frases reflexivas. Com pesonagens desconhecidos e conhecidos como Gandhi, Lennon, Martin Luter King, Hitler, Leary, Stalin, Munch, Duchamp, Pinochet, Kafta entre outros..

Por fim, podemos dançar com os bailarinos Fred Astaire e Garrincha (sim, pq não?) e ver e refletir sobre a brevidade da vida e da nossa história.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago



O mundo perde hoje, um dos maiores escritores da literatura mundial. Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, em Azinhaga, uma aldeia ao sul de Portugal. Filho de agricultores sem terra que imigraram para Lisboa, abandonou a escola aos 12 anos para receber formação de serralheiro, um ofício que exerceria durante dois anos.

Autodidata, antes de se dedicar exclusivamente à literatura trabalhou ainda como mecânico, desenhista industrial e gerente de produção em uma editora.

Eu conheci Saramago há dez anos, quando li Memorial do Convento (obra que coincidentemente estou a 10 páginas de terminar de reler). O livro conta a história da construção do convento de Mafra no Sec. XVIII. Seus personagens são intrigantes, Baltasar Sete Sóis, Blimunda que é capaz de enxergar dentro das pessoas e capturar suas vontades, o Padre Bartolomeu que queria voar com a sua passarola. Com passagens históricas e fictícias, Memorial do Convento foi meu ponto de partida ao Universo Saramago.

"Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez." Trecho do Livro

O segundo livro do Saramago foi "A Jangada de Pedra". Nesta obra Saramago narra a separação fictícea da Península Ibérica do restante continente europeu. Foi neste livro que comecei a entender o estilo Saramago de fazer críticas a sociedade.

O terceiro livro "A Caverna" Saramago recorre ao mito de Platão para discutir as mudanças econômicas. Comunista, faz críticas ácidas ao modelo econômico.

Porém é "Ensaio Sobre a Cegueira" sua obra prima. O livro faz parte de uma trilogia sobre o ser humano. Nada é tão inquietante, desesperador do que a cegueira branca que assola ao mundo. O livro foi Prêmio Nobel em 1998, fazendo de Saramago o primeiro escritor de língua portuguesa a receber tal prêmio. O "Ensaio Sobre a Cegueira" é uma obra magnífica, perturbadora, onde vivemos a angústia de sermos todos cegos.

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." (Saramago).

O livro foi adaptado com o mesmo nome para o cinema por Fernando Meirelles, numa das melhores adaptações que já vi que um livro. Infos em Blindness

O vídeo do Youtube é a reação de Saramago ao ver pela primeira vez o filme.


Trecho do livro: "Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam”

Após "Ensaio sobre a Cegueira", fiquei algum tempo sem conseguir ler algo do Saramago. Seja pela intensidade, seja por ter medo de se decepcionar e não conseguir ler mais nada tão intenso. Porém, alguns anos depois eu li "As intermitências da Morte" e pude me apaixonar pela morte que se apaixona em vida? Sim sim...

Mulher que enxerga por dentro, homem que queria voar, cegueira, a vida e a morte. Tudo foi um tema para Saramago, uma crítica...

Hoje eu termino mais um livro deste escritor, mais triste do que normalmente termino um livro, pois termino com a certeza de que a literatura ficará mais sem graça e o mundo um lugar mais "cego" de se viver...

"Cada vez mais sós

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro."

Saramago “Cada vez mais sós”, in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Henry Miller



No dia 7 de Junho de 1980, o mundo perdia um dos seus maiores e mais polêmicos escritores. Henry Miller não foi só um escritor foi um "subversivo da literatura". A sua obra é difícil de definir....talvez fique entre o fantástico e o desnecessário.

O meu primeiro contato com Henry e sua obra foi através do filme "Henry e June" (USA, 1990). O filme narra o encontro de Anais Nin (Maria Medeiros) com June (Uma Thurman) e Henry Miller (Fred Ward). Ambientado em Paris, nos anos 30s, mostra Henry num triângulo amoroso e quando escrevia e lançava 'O Trópico de Câncer".

E foi o "Trópico de Câncer" a primeira obra que li de Miller. Quase biográfico, embora este considerava que não. "Trópico de Câncer" te transporta para Paris, durante o entre guerras, quando a cidade foi o destino de artistas de todos os tipos e centro cultural e vanguardista da Europa.

Mais do que isso, Henry te faz caminhar por hotéis e pensões baratas, passar fome, viver de favores, transar c/ prostitutas, conviver e se embebedar com outros artistas, intelectuais tão expatriados como ele.

Henry não te pergunta se você quer tanto, quando você percebe está lá a "fornicar com os personagens". Nada em Henry Miller é pouco, não é ousado ou não é polêmico.

A obra de Henry hoje é considerada "erótica". Porém, a minha opinião leiga a considera pornográfica. Hoje a nossa noção de pornografia é mais ampla. Mas se analisarmos o contexto da época que foi escrita...

Embora tenha ficado conhecido pela sua literatura erótica, Miller escreveu obras que fogem da temática sexual como "Big Sur e As Laranjas de Hieronimus Bosch", "Colosso de Marússia", entre outras...

Passaram se 30 anos que Henry Miller, deixou o mundo. Porém, este vive nos seus "Trópicos" e na sua intrigante "Crucificação Encarnada".