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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Travessia

 

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Segue teu destino


Segue o teu destino,


Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.



A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.



Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.



Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.



Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

    (Odes de Ricardo Reis heterônimo Fernando Pessoa)

    sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

    Desassossego




    Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmos-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente ente margens afastadas.
    Não sei se estes sentimentos são uma loucura lenta do desconsolo, se são reminiscências de qualquer outro mundo em que houvéssemos estados - reminiscências cruzadas e misturadas como coisas vistas em sonhos, absurdas na figura que vemos mas não na origem se a soubéssemos. Não sei se houve outros seres que fomos, cuja maior completidão sentimos hoje, na sombra que deles somos, de uma maneira incompleta - perdida a solidez e nós figurando-no-la mas nas só duas dimensões da sombra que vivemos.
    Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. A impossibilidade de nos figurar uma coisa a que correspondam, a impossibilidade de encontrar qualquer coisa que subsititua aquele a que se abraçam em visão - tudo isto pesa como uma condenação dada não se sabe onde, ou por quem, ou porquê.

    (Fernando Pessoa - Livro do Desassossego - Fragmento 196 )

    segunda-feira, 6 de setembro de 2010

    Não Sei Quantas Almas Eu Tenho

    Fernando Pessoa


    Não sei quantas almas tenho.

    Cada momento mudei.

    Continuamente me estranho.

    Nunca me vi nem acabei.

    De tanto ser, só tenho alma.

    Quem tem alma não tem calma.

    Quem vê é só o que vê,

    Quem sente não é quem é,

    Atento ao que sou e vejo,

    Torno-me eles e não eu.

    Cada meu sonho ou desejo

    É do que nasce e não meu.

    Sou minha própria paisagem;

    Assisto à minha passagem,

    Diverso, móbil e só,

    Não sei sentir-me onde estou.



    Por isso, alheio, vou lendo

    Como páginas, meu ser.

    O que segue não prevendo,

    O que passou a esquecer.

    Noto à margem do que li

    O que julguei que senti.

    Releio e digo : "Fui eu ?"

    Deus sabe, porque o escreveu.