sexta-feira, 10 de abril de 2009

A menina inventora....



Ela sabia que ele não existia, como uma certeza matemática. Ela sabia que o amor não existia e por isso tratou de inventá-lo. Comprou roupas novas, se perfumou e saiu para inventar o amor. Encontrou seu desejo, buscou seu cúmplice e tratou de inventá-lo. Passou a desejá-lo, a querer amar inventado todos os dias. Sentia saudades do amor inventado e queria inventar o para sempre inventar.
O amor inventado ficou confuso e não sabia o que fazer, pois assim como a menina não sabia amar. Buscou inventar momentos, escrever cartas, poesias e desabafou nas noites inventadas.
Recortou e colocou saudades, sentiu medo de perder o amor inventado. Olhou nos olhos do amor inventado e percebeu que já não era mais tempo de inventar de amar.
Uma noite sozinha recortando e colando as lembranças do amor inventado deixou de inventar. Guardou os recortes de alegrias, as tristezas coladas e saudades costuradas em papel marché no caderno de momentos.
Guardou o caderno com as provas irrefutáveis que um dia o amor tinha sido inventado. Prometeu que nunca mais iria inventar de inventar a inventúria de amar.
Um dia, distraida pensando no amor inventado, esqueceu o caderno no ônibus.
Chorou de verdade pelo amor inventado, que agora moraria num achado e perdidos de uma estação qualquer...

quinta-feira, 12 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fazedor de Homens

Todo homem é uma ilha...
(Toda mulher é uma ilha).
É bom ser uma ilha distante
tanto quanto é bom ser um homem.

Todo homem possui uma ponte,
pois é preciso sair da ilha, seguro.
A ponte de um homem é um braço estendido.

Todo homem é um mundo.
O mundo roda no sistema egocêntrico
de suas realidades,
pequenos alumbramentos,
medos e coragens.

E quando o homem encara o mundo e se depara
- homem-mundo,
mundo-homem, volta à ilha:
Todo homem ama sua ilha.

II
O homem faz o homem.
E porque fez o homem, sem nem o homem querer
aufere direitos do homem.
Diz a ele: Cresça!
E ele fica mais alto.
Diz ao homem: Trabalhe!
E ele usa o corpo.
Diz ao homem: Viva!
E ele respira e existe.
Diz ao homem: Ame!
E ele não sabe como.
Mas diz ao homem: Procrie!
E ele faz homens.

Um dia ele morre.
Se a vida foi longa para viver -
é curta para morrer -
porque o homem não fez,
não escolheu, não pensou nada.

III

O que faz um homem diferente de outro homem
é o que ele pensa.
O que o transforma, também,
de um simples fazedor de homens,
num criador de homens.

Todo homem é uma vontade.
E se deixa de ser vontade
teme a perda de sua posse.

Todo homem é uma consciência.
Nela inclui o seu saber
e a parte maior do não saber,
e se aceita o fato,
é com ela que ele se entende.

Todo homem é seu corpo.
E sabe dele em contraste com outro corpo,
tal é a sua medida.
Como também, a medida de um homem é a sua carência:
porque é assim que ele se assume,
porque é assim que ele se liberta.

Quanto mais ele precisa
mais ele é maior.E dá.
Pede. Reivindica. Exige, quanto pode.
Luta e sofre.

Todo homem quer deixar sua ilha.
Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto,
não destrói as pontes.
Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha.
A ponte fica ali, só ponte.
E o homem fica ali, só homem...

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Despertador

O despertador toca, são 16h. O rádio com relógio é uma das poucas coisas tecnológicas da casa. Uma tv antiga, os móveis de fórmica azul. As flores de plástico não precisam de cuidados. Os cuidados são apenas para o marido de cama. Um derrame comprometeu toda sua saúde. O despertador é programado para tocar as 8h e as 16h.
Ao tocar o despertador, ela corre para dar os remédios. A sua rotina é essa. Das poucas coisas que consegue se lembrar diáriamente é o remédio do marido. Uma rotina que criou na sua vida. Ela luta diariamente para não esquecê-la. Lutar pelas memórias é a sua virtude. As fotos de pessoas e momentos espalhadas pela casa onde cada lembrança é esquecida nos cantos...
A vida é contraditória pois passamos metade da vida tentando esquecer algumas pessoas e a outra metade tentando lembrar delas.
Ela tem Alzheimer, passa os dias lutando para lembrar como vivia. O despertador toca e ela volta para as suas lembranças, o remédio está ao lado da cama. Porém, ele não está mais lá. Quando ela chega perto da cama se despera. Fica angustiada atrás dele. A cama arrumada indica faz muito tempo que ele não está lá. Ela tenta se lembrar do que aconteceu. Uma angústia na memória e uma saudade no coração. Chora e a enfermeira vem e diz que ele já faleceu fazem mais de 2 anos e diz novamente que irá desligar o despertador. Ela implora novamente para que não faça. Precisa do despertador para se lembrar da família que um dia teve. Entender a sua saudade e chorar a sua tristeza. Pior do que ter uma lembrança ruim é não ter o que se lembrar pois somos o que vivemos e não aquilo que poderia ter sido. Ela se esqueceu novamente, voltou para a ausência de passado. Esperando o despertador das 8h da manhã para voltar a viver...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O tempo...


O tempo é relativo. Enquanto as órbitas dos planetas vão girando, as células vão se multiplicando até a sua exaustão. Uma linha reta.

O tempo muda o próprio tempo, faz este tempo virar lembranças. As lembranças são a nossa tentativa frustada de parar o tempo. Não teremos tempo para tudo.

De todas essas emoções que o tempo traz na nossa vida deve ter alguma que sirva para descrever o próprio tempo.

A vida é o acúmulo de tempos, tempos de erros e acertos de várias pessoas. Conforme esse tempo vai passando aprendemos a olhar o tempo cada dia diferente. Passamos a olhar o ontem com os olhos de hoje e pensamos que poderia ter sido diferente. Mas o tempo não pára nem para pensarmos no tempo que passou.

Talvez eu trocasse a eternidade por mais um dia com você, mas se fosse assim que coisas eu deixaria de viver ? Quantas sensações queremos para uma vida apenas? Quantas despedidas podemos suportar antes de nós mesmos nos despedirmos ?


Não sei aonde irei chegar, quem mais passará por mim, por onde irei passar. Mas sei aonde é o meu lugar...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Longe dos olhos...


As pessoas mudam,
as sensações também.

A percepção não mais equivocada que ter você era uma possibilidade.

Porém, o nosso tempo passou.

Ficou a saudade daquele beijo que não demos.

Mesmo quando nossos olhos se calaram diante do medo de seguir adiante.


sábado, 24 de janeiro de 2009

And I think to myself....what a wonderful world



"I see skies of blue..... clouds of white

Bright blessed days...."


As vezes a gente não precisa mais do que duas ondas para sermos felizes...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Uma lua, duas madrugadas...

Um dia veremos a lua que não contemplamos,
Talvez sinta a ausência que nunca percebemos,
Nada mais do que aquilo,
Que queriamos que fosse,
Não foi nada disso.
Mas não nos perdemos por isso.
Agora deixo as escolhas dizerem,
Aquilo que nunca tivemos coragem de pronunciar...
Um adeus rouco,
Um sonho louco.
Que eu não queria acordar.
Mas não teve também o sonhar.
Apenas um coma mórbido.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Monólogo

Uma ausência esperada.
Uma saudade sentida.
Um monólogo de luta.
Uma solidão que ninguém escuta.
Ainda não me acostumei a não te querer,
Quando me distraio logo te vejo,
Sinto, procuro e desejo.
Nada deixa de ser rapidamente,
Não conseguimos viver aos poucos,
Quando se tem pressa de ser feliz.
Quando a única alegria foi ter esperança.
Esperando por aquele que nunca quis...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

Você me faz parecer menos só, menos sozinho.

Quando seu olhar me encontra,
seus beijos me trazem vida.
Sinto sozinha a minha dor.
Talvez porque nada é eterno.
Porque seja apenas um pouco,
de calor nesse longo inverno.

Quando você me olha assim,
Penso no dia que deixarei de pensar,
Ainda bebo o vinho na sua taça,
Penso e ainda acho graça.
Quanto ainda de amor nos resta,
e como deixamos o tempo escapar,
por menos de uma fresta.
Ainda terá um tempo de amar?

Quando você diz o que pensa,
Choro as minhas saudades,
Aquela dor que não sei direito.
Sinto falta do minuto anterior.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Amar

Um amor assim não é para ser vivido sozinho,
Pois é muito para uma vida inteira.
Sendo grande demais para uma única pessoa.
Cheio de nuaces como a própria vida.
Um amor assim, nasceu para ser compartilhado.
Aumentado, dividido e recomeçado.

Um amor assim precisa aprender a viver,
Plenamento todos os momentos,
Deixando de ficar inseguro,
Um amor assim precisa ser resgatado,
Precisa ser vivido,
Não pode ficar num coração somente contido.

domingo, 5 de outubro de 2008

Solidão

Triste
Vazio
Incerto
Deserto
Solidão
que
tudo
percorre
escorre
solidão
que
faz
dois
olhos
buscarem
apenas
uma
coisa
duas
lágrimas
correrem
separadas
pelo
nariz
um
coração
bater
por
dois
Solidão
que
faz
tudo
buscar
um
sentido
Faz
cada
palavra
existir
sozinha
porque
cada
palavra
tem
a
sua
própria
Solidão

Paz

Um dia quem sabe encontro um estar,
Um cantinho bacana ou meu lugar...
Um dia quem sabe encontro um pouco de paz,
Quem sabe encontro meu lugar,
Dentro do seu olhar.
Uma estrada, uma praia ou um luar.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A janela da alma

Eu tenho medo da saudade que irei sentir. Ainda procuro um tempo de viver nós dois. Um viver lento e que sentirei cada pedaço seu. Cada expectativa mal vivida. Cada emoção não sentida. Eu tenho medo de deixar de te desejar. Pois assim, irei querer somente eu. Pois o nosso nós é um viver solitário.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tanto céu, tanto mar, tanto amar...

Tanto amar que morri, como quem morre de repente. Um amar que mata aos poucos, que vem em ondas quebrando numa praia. Um amar que vem como o mar, arrebata, quebra e parte....
Um amar, que levou com o mar, amar. Deixando somente o céu para amar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ausência

Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Nada mais pouco do que não acreditar num louco

A demência é o nosso acreditar. A fé é seu sintoma. Não somos nada além daquilo que criamos a expectativa que podiamos ser. Não faça promessas, não faça discurso, não crie expectativas. Somos apenas um sonho que acaba ao amanhecer.

domingo, 17 de agosto de 2008

O corpo é o instrumento da alma

O corpo é o instrumento da alma,
Ela sorri, corre, foge, cria expectativas,
Mas nunca se acalma,
Diante das sensações e tentativas.

O corpo sente frio e se esquenta,
Sente arrepios e não se aguenta,
Cresce, sente, tenta,
Quando perde não se lamenta.

A alma busca suas verdades,
E o corpo busca suas vaidades,
A alma ama,
E de saudades reclama.

A alma quer se enroscar,
Quer gritar,
Quer chorar,
Usando o corpo para falar.

A alma usa as pernas para correr,
Os olhos para entender,
A boca para dizer,
e o coração para fugir.

A alma nunca se acalma,
Não deixa para lá,
A alma nunca mente,
A tristeza que o corpo já não sente.

A alma a todo momento,
Algo está querendo,
Chamando de sentimento,
O que está dizendo.

A alma usa o corpo para mudar o mundo,
Vive tudo num segundo,
Mas seu instrumento com ela está
Para o que tiver que ser será.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Esses dias de olhar o horizonte

Esses dias de olhar o horizonte são estranhos. Você não sabe o que está perto ou longe. Uma miopia existencial e uma taquicardia agonizante. Uma pulsação ao agir e um mal estar mental. Uma doença crônica e medrosa. Um tumor vazio e um coração gélido.